Reitora
Ao arrepio da narrativa que tem vindo a impor-se sobre a importância da interdisciplinariedade, as políticas científicas e os seus instrumentos, métricas e classificações, tal como muitas práticas arreigadas nas nossas instituições, têm frequentemente retido,
quando não promovido, a disciplinaridade.
A revista Entrecampus nasceu em dezembro de 2019 com o objetivo de dar visibilidade à investigação do Iscte, contando histórias inspiradoras sobre
as pessoas e os projetos que aqui se desenvolvem. Fê-lo, ao longo dos últimos anos, relatando processos e resultados de projetos e destacando as trajetórias dos seus protagonistas, num registo que assumiu progressivamente o formato de entrevista.
O foco foi claro: partilhar informação sobre o que fazemos para nos conhecermos melhor internamente, mas também dar-nos a conhecer aos parceiros externos e à comunidade científica. Estes continuam a ser os seus objetivos.
Mas importa renovar a ambição, expandindo a difusão da revista nos planos nacional e internacional. Por isso mesmo, a partir deste número 12, a Entrecampus torna-se bilingue, ajusta o seu formato gráfico a essa inovação, e passa a contar com a curadoria científica do SocioDigitaLab na articulação com os centros de investigação, laboratórios e observatórios.
Os testemunhos aqui reunidos refletem bem a diversidade da investigação conduzida no Iscte em termos de problemas estudados, perspetivas teórico-metodológicas ou objetivos de pesquisa. Ficamos a saber mais sobre o apoio à inclusão de crianças migrantes nas escolas, sobre armazenamento de dados de saúde e processamento das suas aplicações pela IA com vigilância ética; sobre o impacto da transição energética na vida das comunidades, ou sobre o desenvolvimento de novas tecnologias para o 6G. Mas conhecemos também projetos que visam tornar o sistema alimentar mais equitativo e sustentável, promover uma mudança de paradigma nas políticas da habitação ou compreender os efeitos prolongados no tempo dos projetos internacionais de desenvolvimento. É-nos ainda apresentado um projeto — único no país — que junta as ciências sociais à tecnologia mais avançada, e que permitirá simultaneamente digitalizar, processar e visualizar dados de arquivos: o Laboratório de Digitalização e Visualização Avançada de Dados (David Lab).
Para além da diversidade científica e do pluralismo metodológico, a investigação que se faz no Iscte reflete também a forma como pensamos a universidade e os princípios em que assentam as nossas práticas científicas, pedagógicas e de relação com a sociedade. Saliento três.
Em primeiro lugar, o respeito pela diversidade dos caminhos da produção de conhecimento. O desenvolvimento científico e a inovação resultam de combinações não lineares e de articulação complexa entre investigação básica e aplicada. No Iscte, promovemos ciência movida tanto pela vontade da descoberta, da exploração e da curiosidade — os ingredientes fundamentais de uma ciência livre — quanto pelo compromisso com a resposta a problemas concretos. Devemos continuar a fazê-lo.
O estabelecimento de hierarquias e uma visão de cadeia de valor sequencial entre investigação e inovação não contribui para um sistema científico saudável. Mas, igualmente decisivo, é o facto de o fazermos no quadro de um ecossistema onde a formação avançada e a cooperação internacional assumem destaque. Importa reforçar ambas.
Em segundo lugar, a interdisciplinaridade. Todos os projetos que se vão destacando ao longo das páginas da Entrecampus incluem, de forma explícita, o cruzamento de saberes e perspetivas. Sendo uma marca do Iscte — e, na verdade, uma necessidade crescente na resposta a problemas que reclamam o esbater de fronteiras entre disciplinas —, é também um dos desafios mais exigentes que temos de enfrentar. Ao arrepio da narrativa que tem vindo a impor-se sobre a importância da interdisciplinariedade, as políticas científicas e os seus instrumentos, métricas e classificações, tal como muitas práticas arreigadas nas nossas instituições, têm frequentemente retido, quando não promovido, a disciplinaridade. Não se trata de negar a importância dos desenvolvimentos específicos das diferentes áreas científicas, os quais devem continuar a ser estimulados. Trata-se de viver de acordo com a nossa retórica, resistindo a lógicas estritamente corporativas e a visões que condicionam a qualidade do conhecimento que produzimos e reduzem a eficácia da sua aplicação. Num momento em que estão em revisão, no nosso país, as principais leis e quadros regulamentares da ciência
e do ensino superior, é tempo de vigilância epistemológica. Mas também de intervenção, por forma a garantir que as políticas correspondem aos valores que advogamos.
Em terceiro lugar, a internacionalização. As universidades são hoje crescentemente avaliadas pelo seu grau de abertura internacional e pela densidade das relações externas que mantêm. O Iscte acaba de apresentar a sua estratégia para a internacionalização, destacando a importância de uma visão integrada e inclusiva, que reforce a qualidade do ensino, da investigação e da inovação, e contribua para a projeção internacional da instituição. A ambição aí inscrita é a de sermos reconhecidos como uma universidade internacionalmente conectada, academicamente exigente e socialmente comprometida. Uma universidade capaz de atrair talento internacional, desenvolver parcerias de elevado valor, proporcionar experiências internacionais de qualidade a toda a comunidade académica e afirmar-se em redes, projetos e rankings relevantes para a sua missão. Os projetos destacados na Entrecampus atestam claramente a relevância das redes e da cooperação internacional para o seu sucesso. Sabemos que precisamos de ampliar esse esforço, e fazê-lo, paradoxalmente, num tempo em que se erguem muros, se questiona a ciência, se dificulta a mobilidade das pessoas
e se restringe a liberdade académica.
Esta revista, na sua nova versão bilingue, contribuirá certamente para enfrentar esse desafio, permitindo mostrar à sociedade uma parte importante do que fazemos na universidade. Essa é uma condição fundamental para preservar a legitimidade das instituições e o valor da ciência e do conhecimento.