INCLUSÃO DE CRIANÇAS MIGRANTES

Cecília Aguiar e Patrícia Arriaga

por Sara Belo Luís
fotografia Luísa Ferreira

“É PRECISO RESPONDER AOS DESAFIOS DA DIVERSIDADE CRESCENTE DAS SALAS DE AULA”



Para apoiar a inclusão de crianças migrantes nas escolas, desenvolveram um jogo de tabuleiro com o objetivo de facilitar o diálogo e, no fundo, poder contribuir para despertar a curiosidade pelos outros.


  

Cecília Aguiar e Patrícia Arriaga

  

Durante dois anos, Cecília Aguiar e Patrícia Arriaga participaram num projeto de investigação — KidLe — que tem como objetivo apoiar a inclusão de crianças migrantes em novos contextos escolares. Trabalharam com dois agrupamentos de escolas de Lisboa e organizaram workshops com professores, pais e crianças. No final, criaram um jogo de tabuleiro: tudo se passa no espaço, há planetas, há aliens, há jogadores e, claro, a necessidade premente de comunicar e viver com os outros. Em breve, esperam também poder vir a dar sequência ao KidLe num outro projeto através do qual pretendem avaliar os efeitos ao nível da sensibilização para o tema da diversidade.

   

O KidLe nasce da ideia de que as crianças aprendem melhor através de jogos do que sentadas à secretária?

Patrícia Arriaga: Se por “atrás da secretária” se entender uma sala de aula, acho que todos os contextos são importantes para as crianças aprenderem. Não poria as formas de aprendizagem em oposição, as crianças aprendem em diferentes contextos. O jogo de tabuleiro é apenas uma ferramenta.

 

Então, que função cumpre?

Patrícia: O jogo de tabuleiro cumpre uma função lúdica e participativa. Pode ser usado em contexto de aula, mas também pode ser usado numa atividade de lazer, na escola ou na família.

Cecília Aguiar: É uma ferramenta complementar importante. Há investigação que sugere que as atividades lúdicas que captam a atenção das crianças contribuem para a sua motivação. Nessa perspetiva, promovendo um maior envolvimento, podem estar associadas a uma maior aprendizagem.

Patrícia: Queria acrescentar uma coisa. Atrás da secretária, quando estão sentadas, as crianças tendem a realizar as atividades de forma individual. Este jogo pretende promover a inclusão, mas também pretende pôr as crianças à volta de uma mesa, a comunicar umas com as outras. Não se trata de um jogo competitivo, mas colaborativo.

 

Que motivações estiveram por detrás do princípio deste projeto?

Cecília: Do ponto de vista mais funcional, começou com um convite do parceiro cipriota que viu em nós know how para coordenar este projeto. Do ponto de vista mais substantivo, decorre da necessidade de dar resposta aos desafios da inclusão e da diversidade crescente das salas de aula. É preciso encontrar ferramentas para apoiar o trabalho dos pais e dos professores e encorajar a interação positiva entre crianças que vêm de meios diferentes, a curiosidade sobre o outro, a partilha de quem são e das suas preferências. Tudo isto com o objetivo de se conhecerem melhor e de criarem relações de amizade.

  

Cecília Aguiar e Patrícia Arriaga 2

 

Como estabeleceram as redes com os dois agrupamentos de escolas de Lisboa com quem trabalharam?

Patrícia: No Centro de Investigação e Intervenção Social (CIS-Iscte), já tínhamos um colega, o Ricardo Rodrigues, que também fez parte da equipa do KidLe, a trabalhar com escolas nestes aspetos da multiculturalidade.

Cecília: Trata-se de um projeto de apoio a agrupamentos, para pensar as suas estratégias de intervenção e desenvolver planos de melhoria. O Ricardo ajudou-nos a identificar escolas com elevada diversidade, fomos à procura de escolas que já se mobilizavam para este tipo de objetivos. Além disso, também procurávamos escolas com grupos que nem sempre são considerados.

 

Que grupos são esses?

Cecília: Crianças do Bangladesh, por exemplo. Aliás, acabámos a selecionar o bengali como uma das línguas a considerar, porque é muito invisível e não é suficientemente valorizada.

  


Este jogo pretende promover a inclusão, mas também pretende pôr as crianças à volta de uma mesa, a comunicar umas com as outras.


 

Depois, também introduziram uma versão digital do jogo. Qual o objetivo, tendo em conta que aí já não é possível sentar as crianças em torno de uma mesa?

Patrícia: A ideia do digital é conseguirmos chegar a mais famílias, a mais escolas. Na prática, o jogo são cinco jogos e nem todas têm recursos para imprimir estes materiais.

Cecília: Também organizámos seminários de sensibilização dirigidos a educadores, professores e pais durante os quais eles identificaram, imediatamente, a possibilidade de usar o jogo e a plataforma digital para interagir com outros estudantes e com escolas de outros países. Viram logo esse potencial.

  

Jogo

 

Há algo que vos tenha surpreendido no decurso do projeto?

Patrícia: Acho que fomos sendo sempre surpreendidas pelo entusiasmo das crianças... E também pela imaginação que revelaram quando as tarefas implicavam desenhar, por exemplo.

Cecília: Um dos aspetos de que as facilitadoras (que participaram nos workshops) nos deram conta está relacionado com a questão do movimento físico. Diziam-nos sempre que as crianças queriam mexer-se.

Patrícia: Ah, sim, estavam preocupadas porque um jogo de tabuleiro implica estar parado, não é?

Cecília: Sabíamos disto, mas o feedback tornou-se tão consistente que pensámos numa forma de incorporar o movimento no jogo. Pode ser só bater palmas, mas também pode ser pular em conjunto ou até respirar profundamente, como uma forma de relaxar.

Patrícia: O bem-estar e a saúde não passam só pela dinâmica da ação, também passa pelo relaxamento. Estudei um pouco as emoções positivas e, na verdade, existem culturas que privilegiam a calma e a respiração profunda.

 

Nomeadamente, as culturas orientais.

Patrícia: Exato. Esta dimensão do jogo também procura responder a essa diversidade.

Cecília: São pequenos detalhes. Fomos tentando conciliar a teoria, o conhecimento da investigação, com os insights que fomos tendo ao longo dos workshops. Este foi um período de desenvolvimento ativo do jogo, mas também sentimos que era importante avaliar, de forma efetiva, o impacto da utilização destes materiais e as condições em que as mudanças positivas aconteceram. 

 


Queremos tentar perceber em que medida é que podemos avaliar se os participantes, facilitadores e crianças, se tornaram mais sensíveis às questões da diversidade.


 

Fazem referência à importância dos jogos para a existência de uma certa coesão social. Que conclusões já conseguem tirar a este nível?

Cecília: Faz parte das nossas opções de orientação para o próximo ano acolher estudantes que queiram também contribuir para esse trabalho. Neste momento, temos sobretudo feedback qualitativo.

Patrícia: Ainda assim, não esperamos que um jogo, por si só, tenha um impacto muito elevado.

 

Pode dar um contributo, mas continua a ser apenas um jogo, não é?
A investigação nesta área tem mostrado que os efeitos quantitativos de intervenções com jogos tendem a ser reduzidos, embora sejam observáveis e relevantes.

 

E um efeito mais genérico de sensibilização para as questões da inclusão, da diversidade e da tolerância?

Patrícia: Isso sim…

Cecília: O tal awareness que temos vindo a discutir.

 

O que é que isso significa?

Cecília: Queremos tentar perceber em que medida é que podemos avaliar se os participantes, facilitadores e crianças, se tornaram mais sensíveis às questões da diversidade. Se ficaram mais curiosos em relação ao outro, se querem conhecer as suas experiências e as suas preferências.

 

Há pessoas diferentes de mim e elas são interessantes.  

Cecília: Sim, do ponto de vista qualitativo, o feedback das crianças é positivo. Gostam de jogar, valorizam ajudar-se uns aos outros nas várias atividades. Também podem contribuir de outras maneiras, por exemplo, através do gesto, para além da linguagem.

 

Ultrapassando, portanto, a barreira da língua…

Cecília: Exato. Podem fazer gestos, podem fazer desenhos… Mesmo os mais tímidos, podem contribuir de maneiras diferentes. Esta dimensão da ajuda mútua, mesmo entre os que não falam a mesma língua, foi muito visível nos workshops.

 

O facto de este projeto também ter sido desenvolvido fora dos muros da academia é, para vós, uma dimensão importante?

Cecília: É uma dimensão essencial. Aliás, este projeto está claramente alinhado com os nossos objetivos e com os nossos interesses dentro do CIS-Iscte, no grupo em que estamos inseridas, que se chama Comunidade, Educação e Desenvolvimento. O próximo passo será desenvolver um trabalho mais aprofundado de análise do impacto e das condições em que há impacto. Também será interessante identificar que tipo de formação é necessária para assegurar que os facilitadores estão efetivamente preparados para alimentar conversas positivas e construtivas que reduzam o preconceito relativamente a crianças que venham de backgrounds mais diferentes.

Patrícia: Outro dos nossos objetivos sempre foi evitar que as personagens do jogo fossem pessoas. Seria difícil representar toda a diversidade através de uma só fisionomia… Foi um exercício desafiante perceber até que ponto conseguíamos fazê-lo. Julgo que o mais difícil foi criar símbolos que pudessem representar letras de outras línguas.

Cecília: No fundo, queríamos escapar de tudo o que pudessem ser restrições, quer pelas referências culturais, quer por haver o risco de nos focarmos num referencial visual ocidental. Por isso, todos os elementos são novos.

 

Porque é que escolheram o espaço como cenário do jogo?

Cecília: Foram as crianças que escolheram o cenário do espaço. Havia outras possibilidades, como a savana, por exemplo…

 

O espaço é o lugar da imaginação, por excelência.

Patrícia: Sim, isso funcionou muito bem. No fundo, também apela a um imaginário que não é muito concreto.

 

Sentem que, de alguma maneira, este é também um projeto de resistência?

Cecília: Sim, de repente, à nossa volta, estes objetivos não são propriamente os prioritários. Mas sentimos que este projeto é coerente com
o trabalho que temos vindo a desenvolver. E também com a literatura e com a investigação, com aquilo que sabemos contribuir para o bem-estar das pessoas. 

 


Claudia e Cecília

 

Cecília Aguiar e Patrícia Arriaga

CIS-Iscte
Centro de Investigação e Intervenção Social

 

 

 

KidLe

Tem como objetivo apoiar a inclusão de crianças migrantes em novos ambientes escolares. O projeto visa ainda ajudar educadores e pais a usarem atividades lúdicas (no caso, jogos de tabuleiro) na aprendizagem e no desenvolvimento infantil.