por Sara Belo Luís
fotografia Luísa Ferreira
O Feed faz uso de uma metodologia simples, a recolha de testemunhos de mulheres agricultoras, para cumprir um objetivo ambicioso: a defesa de um sistema alimentar mais equitativo e sustentável.
Durante um ano, recolheu testemunhos de várias mulheres agricultoras de Portugal, do País Basco e da Galiza. Deixá-las contar as suas experiências, ouvir os seus relatos sobre “o amor à terra” e, com isso, “dignificar as suas vozes”, como diz nesta entrevista sobre o Feed — Fighting for Food and Gender Justice. O resultado é um conjunto de textos e de vídeos que, mais tarde, também serão úteis a outros projetos de Rita Calvário, engenheira agrónoma que há muito desenvolve a sua investigação na área da sociologia rural. “Temos muito a aprender com estas mulheres”, nota.
O Feed recolheu testemunhos junto de um conjunto de mulheres que trabalham na agricultura. Quem são estas mulheres?
São mulheres rurais, provenientes de territórios de pequena agricultura familiar. Têm dois perfis: por um lado, são produtoras de alimentos e estão envolvidas em agroecologia ou sistemas considerados inovadores do ponto de vista produtivo; por outro lado, têm um perfil ativista ou pelo menos algum envolvimento com projetos mais coletivos, redes formais e/ou informais ou mesmo organizações camponesas.
Trata-se de um projeto que nasceu de outro mais vasto sobre desigualdades de género na agricultura portuguesa. Qual a importância desta investigação em particular?
Esse outro projeto é de seis anos e está centrado em mulheres trabalhadoras agrícolas, sobretudo migrantes, e depois em mulheres a trabalhar na agricultura familiar. Interessa-me perceber quais são as condições sociais, económicas e políticas que se traduzem em desigualdades de género, que cruzamentos existem (ou não), o que é específico em cada dos grupos. Também gostaria de perceber a agência destas mulheres, a sua capacidade de lidar com o quotidiano, de traçar estratégias, de negociar relações de poder.
Para estas mulheres, o trabalho não é só uma obrigação, não é só uma forma de garantir o sustento. Também corresponde a um modo de vida,
a uma forma de estar. Há uma ligação e um amor à terra.
Como chegou aos três territórios onde o projeto se desenvolve, Portugal, Galiza e País Basco?
O foco é Portugal, mas, como tenho estado envolvida com outras equipas, mobilizei as minhas redes de trabalho com outros investigadores. No meu doutoramento, um dos casos de estudo era no País Basco, com jovens agricultores em agroecologia. Na Galiza, também existem investigadoras a trabalhar na história agrária, nas mulheres rurais e nas questões de género. Neste projeto, a ação participativa é muito relevante como metodologia de estudo.
Cada investigador tratou do seu território?
Sim, por uma questão de proximidade e de facilidade, até por causa do idioma em que as entrevistas foram feitas. No meu caso, o critério essencial foi o facto de as mulheres estarem envolvidas em organizações ou redes, mas de uma forma muito diversificada. Também me interessava cobrir alguns territórios e não ficar apenas pelo Alentejo… Falei com várias organizações, cooperativas integrais na zona da Guarda, de Castelo Branco, de Odemira, falei com uma associação de agricultura biológica do Algarve… E ainda com uma associação de agricultores mais tradicional, em Trás-os-Montes.
São mulheres diferentes umas das outras?
Sim, as suas histórias são muito diversas. Variam muito na idade, na educação, no percurso, por exemplo. Há pessoas que não tinham qualquer ligação ao mundo rural, outras que tinham memórias de infância. Uma das senhoras tem 82 anos, mas também há mulheres muito mais jovens…
O que é, exatamente, a agroecologia?
Existem várias definições. Uma delas está relacionada com a questão produtiva, digamos assim, com métodos de produção que divergem dos mais convencionais: rejeitam inputs externos, tentam desenhar, com os recursos existentes, um sistema produtivo que seja uma espécie de economia circular. A meu ver, porém, agroecologia é mais do que isto: é um movimento social e político. A exploração não é somente produtiva, não vive à parte do território, das comunidades rurais e dos ecossistemas.
Ajuda o facto de termos feito as gravações em vídeo e de existir um site onde disponibilizamos praticamente na íntegra as histórias destas mulheres. Não existe o olhar externo do investigador sobre elas — corresponde realmente ao que contam. Isto ajuda a dignificar as suas vozes.
E como surgem as questões do trabalho?
Olhar para as várias dimensões significa também olhar para as questões do trabalho, dos direitos, das desigualdades. Numa perspetiva de justiça social, de justiça climática e, daí, o movimento político. É preciso lutar por um modelo agroalimentar em que o agricultor, as pessoas e os ecossistemas são o centro — não vendo o alimento apenas como uma produção de mercadorias.
Durante a recolha de testemunhos foi surpreendida?
Sim, fui. Como disse, estas mulheres têm perfis muito diferentes. Mas há um elemento que é central, que é a questão dos cuidados. Cuidados em relação ao ambiente, aos animais, às pessoas, aos territórios. Estas mulheres reproduzem vida, reproduzem um alimento que nutre territórios, pessoas, animais. E que lhes dá satisfação para trabalhar a terra. Para elas, o trabalho não é só uma obrigação, não é só uma forma de garantir o sustento. De alguma maneira, o trabalho tem de ser recompensador e, portanto, também corresponde a um modo de vida, a uma forma de estar. Há uma ligação e um amor à terra.
Em algum momento sentiu que estas mulheres desconfiavam do trabalho dos investigadores?
Não, desconfiar, não. Mas, em alguns casos, existe algum cansaço do trabalho académico porque estas mulheres nem sempre veem nele algum retorno. No caso do País Basco, onde estão algumas com um percurso mais ativista, nem sempre se entende bem se vale a pena. Também ajuda o facto de termos feito as gravações em vídeo e de existir um site onde disponibilizamos as suas histórias praticamente na íntegra. Quer dizer, não existe o olhar externo do investigador sobre elas, corresponde realmente ao que contam. Isto ajuda a dignificar as suas vozes.
A ciência precisa de diversificar as suas formas de comunicar?
Evidentemente que os artigos científicos são importantes. Mas são coisas diferentes e eu julgo que é necessário diversificar um pouco as formas de comunicação com a sociedade e, assim, devolver o trabalho que é feito na academia.
Portugal e Espanha têm trajetórias que se cruzam. Tiveram períodos de ditadura longos, extremamente impactantes. E em ambos os países o peso da agricultura no território e na sociedade também foi muito forte, até há 50 ou 60 anos.
O facto de o Feed ter sido desenvolvido em Portugal, Galiza e País Basco pode levar-nos a concluir que aqui também está uma certa ideia de Europa do Sul?
Desde que fiz o doutoramento que o foco do meu trabalho tem sido a Europa. Faço-o sempre numa perspetiva de periferia ou semiperiferia. Enfim, isto é discutível…
Porque as periferias têm, elas próprias, outras periferias.
Exato. A verdade é que Portugal e Espanha têm trajetórias que se cruzam. Tiveram períodos de ditadura longos, extremamente impactantes. E em ambos os países o peso da agricultura no território e na sociedade também foi muito forte, até há 50/60 anos. É a partir dos anos 60 do século passado que, com o grande êxodo rural, se dá o início da modernização da agricultura. A adesão à Comunidade Económica Europeia, em 1986, também originou transformações muito rápidas no meio rural. Portugal foi o país onde houve um maior declínio das explorações agrícolas. E onde o peso da agricultura familiar de pequena escala e a grande agricultura é enorme.
O projeto também pode contribuir para o debate em torno da transformação dos sistemas alimentares?
Sim, e de várias maneiras. Pode, desde logo, dar visibilidade ao tipo de agricultura que estas mulheres praticam, a esta lógica de cuidados. E também chama a atenção para esta perspetiva da produção de alimentos: como algo que se vende, que é consumido, mas que também envolve práticas de sustentabilidade, que cuidam do ambiente, que geram alimentos nutritivos, que seguem ritmos mais próximos dos ciclos naturais. Estas formas de negócio continuam a ser desvalorizadas, apesar de, em alguns destes casos, também existir sucesso comercial...
Diria que temos algo a aprender com estas mulheres?
Julgo que sim, que temos muito a aprender com elas. Temos de aprender, em primeiro lugar, a respeitar as agriculturas que existem no território, olhar para as realidades que existem, perceber o que as pessoas fazem e porque é que o fazem. Não podemos partir de ideias pré-concebidas de que há um modelo que funciona e que deve ser aplicado em todo o lado, porque é moderno, produtivo e económico. Tudo isto tem gerado desigualdades fortíssimas nos territórios e, sobretudo, tem subordinado muito as mulheres e as agriculturas que as mulheres praticam. Se o objetivo da política é criar territórios mais coesos, ambientalmente sustentáveis, com mais igualdade de género, então, precisamos mesmo de o fazer. É uma evidência que o tipo de agriculturas que se têm promovido, intensivas, de larga escala, geram um conjunto de problemas muito sérios, por mais inteligência artificial que apliquemos.
Isso corresponde também a uma recusa da tecnologia?
Estas mulheres não recusam a tecnologia, elas adaptam-na consoante as suas necessidades. Estas mulheres não param de pensar — e de aprender. O erro e a experimentação são, aliás, muito importantes para os sistemas mais próximos dos equilíbrios ecológicos.
E obriga-nos a olhar para o mundo rural de outra forma?
Sim, julgo que sim. E para uma certa ideia de atraso, para uma certa ideia de subdesenvolvimento, do que é a modernidade. O urbano-industrial não é necessariamente progresso. Claro que também não quero romantizar estas práticas. Cada coisa tem o seu lugar…
A própria ideia do interior abandonado é um pouco romantizada.
E também não corresponde à realidade. Porque existem muitas pessoas, antigas e novas, que estão a fazer os seus projetos. Há jovens que estão a criar um dinamismo nestes territórios que, muitas vezes, não é visível. Também quisemos contestar um pouco a ideia do mundo rural sem população, vazio…
Por fim, como é que uma engenheira agrónoma chega às ciências sociais?
Isso parte de um certo preconceito acerca das ciências sociais. Sou engenheira agrónoma, mas no ramo da sociologia rural e da economia agrária. A minha formação também me é útil para fazer esta ligação entre os sistemas naturais, a tecnologia e todas as questões económicas, sociais e culturais associadas. Existe, aliás, uma grande tradição em Portugal desta área.
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Rita Calvário Dinâmia’CET-Iscte |
Feed Projeto assente em testemunhos de mulheres agricultoras em casos de agroecologia e envolvidas em coletivos em várias regiões de Portugal e Espanha (Galiza e País Basco). |