EFEITOS DA TRANSIÇÃO ENERGÉTICA

Ruy Blanes

por Rita Alves
 fotografia Luísa Ferreira

 

“A TRANSIÇÃO ENERGÉTICA TAMBÉM É SOBRE COMUNIDADES”

 


Quem paga o preço da transição energética? Quem ganha e quem perde? E que voz têm as pessoas que vivem essas mudanças no terreno? O projeto Energeo percorreu seis países, do Norte ao Sul Global.


  

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Existem territórios que, em nome do interesse coletivo, podem ser sacrificados. Chamam-lhes ’’zonas de sacrifício’’: lugares onde comunidades inteiras têm de se transformar ou desaparecer para que a transição energética aconteça. É a partir desta ideia, e de um interesse antigo pelos efeitos sociais das questões climáticas, que Ruy Blanes, investigador no CRIA - Centro em Rede de Investigação em Antropologia, coordena o projeto Energeo, para perceber quem decide o que se sacrifica e quem paga por isso.

 

Como é que um antropólogo com uma longa trajetória em Angola chegou ao tema da transição energética?

A minha relação com Angola vem de há décadas, através de temas como a religião e a memória, ligada também aos estudos de mobilidade, antes de a dimensão energética entrar no meu trabalho. Em 2009, houve uma crise humanitária significativa, e os seus efeitos sociais e políticos levaram-me a interessar-me pela questão climática.

  

Para além de Angola, o seu percurso passa também pela Europa. De que forma essa experiência internacional influenciou o olhar sobre as questões energéticas?

Através de investigação na Suécia, na Noruega, em Espanha e em Portugal, consegui perceber como diferentes contextos nacionais tratam
a questão da transição energética. Cada país tem as suas próprias histórias de desenvolvimento e a sua própria relação com os recursos naturais.
O que me interessou foi compreender como essas trajetórias históricas e políticas influenciam a forma como cada sociedade enfrenta a transição.

 

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Fala-se muito de energia verde e de metas climáticas. Em poucas palavras, o que é que o projeto Energeo quis perceber?

O que estávamos a tentar fazer era colocar-nos nos lugares onde as metas de energia renovável para 2050 deveriam ser cumpridas. Há um desfasamento entre as metas políticas e a realidade vivida nos territórios. O projeto procurou perceber essa negociação e discrepância entre a política global e a vida local. Muitas vezes, as metas desaparecem no terreno e a realidade que as pessoas vivem é completamente outra.

  


Para quem vive em África, a transição energética global representa muitas vezes mais exploração, mais degradação ambiental e mais perda de autonomia sobre os seus próprios recursos.

 

 

Pode dar-nos um exemplo concreto disso?

Visitei uma aldeia numa zona de transição energética, em Cabo Delgado, onde uma empresa de energia renovável tinha instalado infraestruturas. Às comunidades locais tinham sido prometidas compensações e oportunidades de trabalho, mas as terras que havia para agricultura tinham sido alteradas, os empregos que surgiram eram precários e temporários, e muitos desapareceram com a pandemia, sem que as pessoas voltassem a ser chamadas. O que me marcou foi perceber a distância entre as intenções e a realidade. Os jovens, especialmente, sentiam-se desconectados do projeto: viam um horizonte de oportunidades anunciado pelo discurso oficial, mas na prática eram constantemente barrados no acesso a essa economia.

 

Que impacto teve essa desconexão nos jovens?

Esse sentimento de exclusão é, aliás, uma das explicações apontadas para a relação entre a região e a insurgência armada que se instalou. Isso mostra que a transição energética não é apenas sobre tecnologia ou metas climáticas,
é sobre pessoas e comunidades que têm de viver com essas mudanças.

 

O projeto teve um dos seus encontros de trabalho de campo no estreito de Gibraltar. Que importância ganhou esse espaço na transição energética?

Os estreitos podem ser pensados não apenas como lugares de passagem, mas como lugares de ligação. O estreito, por exemplo, teve ao longo da história vários projetos de conexão, sendo que as versões mais recentes têm a ver com o transporte de energia, cabos de comunicação, mas também gás natural. Hoje representa a separação entre a Europa e a África, mas do ponto de vista geoenergético é cada vez mais visto como um ponto
de ligação, com circulações entre a Espanha e Marrocos, e mais amplamente entre a União Europeia e o Norte de África. Como temos visto, no caso do estreito de Ormuz, quando há um conflito político, há interrupção dessas ligações, e daí resultam crises energéticas e de abastecimento.

 

Porque é que faz sentido juntar geografias tão distintas numa mesma investigação?

Queríamos compreender como a transição energética funciona em geografias completamente diferentes, com recursos naturais distintos, lítio, grafite, hidrogénio verde. Ao traçar essas conexões entre o Norte e o Sul, conseguimos perceber que há processos globais que atravessam estes países. Quer estejamos em Portugal, em Itália ou em Angola, há questões comuns sobre como os recursos são extraídos, quem se beneficia
e quem paga o preço.

 

O que é que têm em comum?

A ideia de zonas de sacrifício. Em todos estes países, existem territórios que são considerados como servindo um interesse superior, quer seja nacional ou europeu, o que permite que certas coisas aconteçam ali e que não seriam aceitáveis noutros lugares. Algumas comunidades têm de desaparecer ou transformar-se radicalmente. Essa lógica de sacrifício atravessa todos os contextos que estudámos.

 

O projeto introduz o conceito de energo-geografias. O que significa exatamente?

Energo-geografias é um conceito operativo que tenta expandir a ideia de que a energia não é apenas uma questão técnica ou política, mas também uma questão profundamente geográfica e social. É sobre compreender que a energia está sempre localizada e territorializada.

 


Portugal tem uma narrativa forte de transição bem-sucedida, com números que a sustentam: uma grande fatia da produção energética já provém de fontes renováveis.


 

E o que se ouve junto das comunidades chega aos lugares onde as decisões se tomam?

Sim, houve várias ocasiões em que conseguimos documentar contestações. Mas a questão é se essas vozes foram realmente ouvidas nos espaços de decisão. Muitas vezes, as comunidades protestam, mas as decisões já foram tomadas. O desafio é perceber como criar espaços onde essas vozes tenham poder real de mudar as coisas.

 

Portugal apresenta-se como um modelo de transição energética bem-sucedida. Concorda com essa narrativa?

Portugal tem uma narrativa forte de transição bem-sucedida, com números que a sustentam: uma grande fatia da produção energética já provém de fontes renováveis, cumprindo compromissos de descarbonização e diversificação.

 

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E quando se olha para o terreno, essa narrativa resiste completamente ao escrutínio científico?

Esses números são reais em parte. O problema está na forma como o impacto ambiental é contabilizado: as energias renováveis apresentam números verdes na redução de carbono, mas por trás há mineração e extrativismo com grande impacto ambiental, só que esse impacto não acontece em Portugal, acontece nos países de onde vêm os materiais. Em Sines, por exemplo, a reconversão industrial e energética tem impactos concretos sobre o emprego e sobre a vida das comunidades, um dos casos que mostra que o modelo português é mais complexo do que a narrativa oficial deixa transparecer.

 

Há um conceito que atravessa a investigação nos contextos africanos, o de colonialismo climático. O que significa, concretamente?

O colonialismo climático refere-se à forma como os países do Norte Global continuam a beneficiar-se da exploração dos recursos naturais do Sul, mas agora com a desculpa da transição energética. Apresenta-se a ideia de energia verde, de descarbonização, mas, na realidade, continua-se a extrair recursos, continua-se a deslocar comunidades, continua-se a beneficiar quem já tem poder. É a velha exploração colonial, com uma etiqueta verde.

 

África é o exemplo mais extremo disso?

África continua a ser fornecedora de matérias-primas para o mundo desenvolvido. O lítio, o cobalto, o cobre, todos necessários para as tecnologias de energia renovável, são extraídos em África com custos sociais e ambientais enormes. Para quem lá vive, a transição energética global representa muitas vezes mais exploração, mais degradação ambiental e mais perda de autonomia sobre os seus próprios recursos.

 

Transição energética, sustentabilidade e ecologia usam-se muitas vezes como sinónimos. Essa confusão é inocente?

Hoje, a questão da energia tem colonizado o debate ambiental. Falar de ambiente é sobretudo falar de sustentabilidade energética. A ecologia é um conceito mais antigo, ligado a movimentos sociais de proteção da natureza, desde o Greenpeace até aos Fridays for Future. A sustentabilidade é mais recente, formalizada pelas Nações Unidas entre as décadas de 1970 e 1990, ligada ao desenvolvimento internacional. O próprio conceito de ecologia caiu em desuso, substituído pela ideia de ambiente, ligada aos debates sobre o Antropoceno. Mas ambos os conceitos têm sido alvo de apropriação política, tanto pela esquerda como, cada vez mais, pela extrema-direita em espaços rurais.

 

O projeto acabou, mas a transição energética não. Que bases deixa para o futuro?

O conhecimento produzido mostra que a transição energética tem de ser muito mais justa e atenta às realidades locais. Não pode ser apenas sobre tecnologia ou números de emissões. Tem de reconhecer que há perdedores neste processo e que eles têm direito a compensação e a voz no processo de decisão. O projeto deixa também a ideia de que a investigação tem um papel importante em documentar e denunciar as injustiças.
E levanta questões importantes: para quem é esta transição? Quem ganha e quem perde? Essas perguntas têm de ficar no centro da agenda política.

 


Ruy

 

Ruy Blanes

CRIA  (polo Iscte)
Centro em Rede de Investigação em Antropologia

 

 

 

Energeo

Estuda as zonas que foram sacrificadas na transição energética: territórios e comunidades que, em nome do interesse coletivo, têm de se transformar ou desaparecer para a mudança acontecer.