PRESERVAR O PATRIMÓNIO HISTÓRICO


Tomás Alves

por Sara Belo Luís
fotografia Luísa Ferreira

 

“PRESERVAR TAMBÉM É IMPORTANTE PARA CONTRARIAR A IDEIA DE QUE ’ANTIGAMENTE É QUE ERA BOMʼ”

 


Em 2027, quando estiver pronto, no David Lab, vai ser possível disponibilizar acervos, documentos e objetos. Um projeto — único no país — que junta as ciências sociais à tecnologia mais avançada.   


 

Tomás Alves


 

Engenheiro informático, Tomás Alves não esconde que está muito feliz no Iscte, onde tem vindo a desenvolver vários projetos com cientistas com outras formações, em particular da área das ciências sociais. Vê a interdisciplinaridade como uma maneira enriquecedora de fazer ciência. “Ajuda
a aplicarmos tudo o que aprendemos na academia.” No Laboratório de Digitalização e Visualização Avançada de Dados (David Lab), vai ajudar-nos a compreender melhor o passado.

 

Quando o projeto estiver terminado, o que vamos poder ver e fazer no David Lab, que neste momento ainda se encontra em obras?

O David Lab será um laboratório com uma linha de montagem linear de digitalização, processamento e visualização de dados. Na sua utilização mais típica, virá alguém aqui dizer-nos que gostaria de preservar determinado acervo histórico. Uma câmara municipal, por exemplo…

 

Poderá ser um acervo em papel ou não necessariamente?

Tanto faz, poderá ser em qualquer formato. Um dos casos que também poderemos vir a ter são portfólios de arquitetos por digitalizar (vamos fazer digitalização de objetos 3D). Esses acervos ou arquivos já deverão vir inventariados para depois conseguirmos fazer um diagnóstico do que vale a pena preservar (se houver muitos documentos repetidos, por exemplo, não vale a pena gastarmos espaço).

 

Depois, esses arquivos ficarão guardados fisicamente aqui?

Não, todos os arquivos serão devolvidos aos seus donos, aqui não vamos fazer arquivo físico. O que iremos fazer é todo o processo de digitalização, incluindo validar se os materiais que vamos digitalizar estão em condições apropriadas.
A preservação digital que faremos estará alojada no nosso data center, respeitando sempre o objetivo de democratizar o acesso a qualquer investigador e sociedade em geral. Depois, também teremos de pensar como é que vamos desenhar um modelo de sustentabilidade porque existem os custos de todas as pessoas que estão a trabalhar, eletricidade, ar condicionado…

 


Gostava de interpretar metáforas de cartazes do Ephemera sobre os quais não temos um contexto histórico exato. Já começamos a ter LLMs que usam computer vision e conseguem não apenas ler texto.


 

Não sendo um arquivo físico, o espaço é ilimitado?

Não, infelizmente, não é. Apesar de muita gente achar que tudo cabe em memória, a partir do momento em que se desmaterializa… Aliás, um dos problemas que temos hoje em dia é o facto de muitos julgarem que, a partir do momento em que está digital, já não tem custos de manutenção — existe em algum lado, mas não é da minha responsabilidade manter esse algo… No David Lab queremos fazer sustentabilidade by design, isto é, queremos dar acesso aberto, sendo responsáveis. Ainda estamos a definir como será essa estratégia.

  


A preservação digital estará alojada no nosso data center, respeitando sempre o objetivo de democratizar o acesso a qualquer investigador e sociedade em geral.


 

A segunda fase será, então, a do processamento. Em que consiste?

Vamos sobretudo usar técnicas de data science com Inteligência Artificial aplicada. Imagine: lê-se um documento através de OCR [Optical Character Recognition], conseguimos depois fazer um enriquecimento de metadados através do qual será possível fazer pesquisas mais semânticas, grupos que estejam conectados ao longo tempo, uma linha sobre o que se passou, por exemplo, na estação de comboios de Sintra.

 

Na última fase, a da visualização, o que está previsto?

O nosso objetivo é termos duas salas de visualização: uma mais analítica, outra mais imersiva. Teremos um video display bastante grande, de 4,8 por 2 metros, touchable, de forma a permitir uma experiência em grupo. Aí também vai ser possível termos experiências de realidade aumentada, realidade virtual, sintetização de cheiro e produção de volumes de som 3D. Conseguiremos ter duas pessoas na mesma sala a ter experiências de som distintas.

 

Poderá ser importante, por exemplo, no caso dos arquivos sonoros?

Sim, arquivos sonoros, preservação de folclore ou danças tradicionais… Na outra sala, será tudo mais à base de data analytics, que é o tradicional na análise de dados, e também de experiências com artefactos tangíveis. Por exemplo, imagine que está a ver um globo que mostra as migrações do planeta Terra em consequência de um acontecimento qualquer. A projeção — aqui poderemos assumir que se trata de realidade aumentada — estará no globo à sua frente e, se quiser interagir com ele, fá-lo-á através de um objeto de internet of things, uma esfera com um acelerómetro; ao rodar a esfera, também conseguirá rodar a projeção. Além disso, vamos ter um acesso remoto através de um portal onde as pessoas poderão consultar os metadados de tudo, de todos os projetos e de todas as coleções.

 

Está explicado porque é que se trata de um projeto único? Não existe nada de semelhante?

Não, não existe nenhuma infraestrutura que tenha um pipeline como o nosso: digitalização, processamento, visualização. Mas isto não quer dizer que todos os processos passem pelas três fases, pelo ciclo de vida completo — podemos, por exemplo, já ter os dados e fazer apenas a visualização.

 

Como nasceu este projeto?

É curioso porque o David Lab nasceu quando o Iscte estabeleceu um protocolo com o Instituto da Mobilidade e dos Transportes (IMT) para construir o edifício 4 no antigo edifício do IMT. Foi então acordado fazer a digitalização do arquivo histórico do IMT: esquemas das linhas demarcadas e também documentos que descreviam, por exemplo, artefactos como os bonés, os chapéus dos maquinistas. É uma coleção bastante vasta e muito interessante, é um arquivo histórico que vamos trabalhar.

 

Entretanto, apareceram mais arquivos e mais parceiros externos.

Sim, temos parcerias com a Câmara Municipal de Lisboa, a Comissão Nacional Portuguesa do Conselho Internacional dos Monumentos e Sítios (ICOMOS-PT) e o Ephemera. Recentemente, disse aos meus colegas de projeto (a Elsa Cardoso na visualização, a Alexandra Saraiva na digitalização e o João Pedro Oliveira no processamento) que gostaria muito de interpretar metáforas de cartazes do Ephemera sobre os quais nós não temos um contexto histórico exato. Além dos LLMs [Large Language Models], já começamos a ter LLMs que usam computer vision e conseguem não apenas ler texto, mas também interpretar artefactos visuais.

  


É nas sobreposições de campos de investigação que o Iscte se manifesta.

E é disso que trata o David Lab.


 

Mas uma metáfora é, por natureza, subjetiva, ambígua…

Sim, mas imagino que com Inteligência Artificial supervisionada conseguimos padrões de interpretação. Acho que isso, com a ajuda de pessoas especialistas em arquivo, pessoas da área da história, pode ser muito interessante — e vai ajudar-nos a ter uma melhor perceção do que era viver naquele ambiente naquela altura. Preservar também é importante como forma de contrariar aquela ideia do “antigamente é que era bom”. Se formos revisitar, percebemos que, infelizmente, o antigamente não era assim tão bom. O que podemos fazer depois é ter agentes conversacionais que sejam especializados nas coleções…

 

Um chatbot com o qual eu estabeleço um diálogo e que me facilita a pesquisa?

Sim, um agente com quem falo e a quem digo, por exemplo, que gostaria de saber mais sobre o 25 de Abril, a sua história e as entidades que participaram. Tudo isto é bastante interessante, é um trabalho que deve ser feito e que não é de todo automático. Quando temos um humano a ler um texto, ele facilmente consegue identificar as várias entidades.
A semântica nem sempre é fácil, mas também é possível um agente identificar que se trata da mesma entidade reconhecida, por exemplo, por dois nomes diferentes.

 

Para si, que é engenheiro, é desafiante este cruzamento de disciplinas?

É desafiante e é sobretudo muito rico. Julgo até que é aí que se consegue tirar o máximo de partido desta interdisciplinaridade do Iscte.
É nos overlaps, nas sobreposições de campos de investigação, que o Iscte se manifesta. E é disso que trata o David Lab.

 

Tomás Alves Projeto

 

O que se ganha, ao certo, com essa interdisciplinaridade?

Ajuda muito a aplicarmos tudo o que aprendemos na academia. Desde que cheguei, muito exemplo, tenho trabalhado muito com a Rita Guerra, que é psicóloga social. Temos inclusivamente um projeto, a começar no próximo ano letivo, chamado Morality, sobre desinformação e sobre como é que a perceção de crimes ligados às comunidades de migrantes é transmitida através de visualizações de dados. Basta ir às redes sociais de determinados partidos para ver desinformação a ser transmitida através de gráficos. Para o cidadão comum, sem grande literacia de visualização, nem sempre é fácil de perceber.

 

O David Lab não pode ser confundido com um museu?

Não, acho que nem pode atuar como tal. Será um laboratório vivo, com estudos experimentais e desenvolvimento de experiências de património digital. Num primeiro nível, a sua função será dar apoio à investigação e, depois, haverá também toda a parte de democratização do conhecimento, para as pessoas aprenderem. Só temos de começar a criar experiências para trazer cá as pessoas e elas virem cá de livre vontade.

 

Estará aberto a escolas?

Sim, para alunos de arquitetura, acho que seria extremamente interessante estar numa sala de realidade virtual ou realidade aumentada
a fazer arquitetura live. Em princípio, uma das primeiras experiências que queremos ter como montra do David Lab é mostrar como teria sido se uma obra de arquitetura que ficou apenas no plano tivesse, de facto, sido construída. No espólio do arquiteto Luís Cunha, por exemplo, há muitas obras que não foram edificadas. Para um estudante de arquitetura também pode ser interessante, quando está a modelar um edifício, saber como é que o som vai ser reproduzido em determinados materiais da parede, do chão, das portas… Conseguimos fazer isso a partir do momento em que temos uma matriz de colunas para o som 3D.

 


Tomás

 

Tomás Alves

BRU-Iscte
Business Research Unit

 

 

 

David Lab

Criação de um laboratório que vai trabalhar em três eixos: digitalização de acervos, processamento de grandes volumes de dados e visualização interativa. Vai permitir digitalizar arquivos históricos, tornando-os acessíveis ao grande público.