por Sara Belo Luís
fotografia Luísa Ferreira
Financiado pela Comissão Europeia, o projeto H:ouse tem como objetivo último a promoção de uma mudança de paradigma nas políticas da habitação. A partir de experiências de “patrocínio comunitário” junto de comunidades de migrantes, é possível encontrar soluções para um dos maiores desafios europeus.
Sandra Mateus é peremptória: ainda que projetos como o H:ouse não sejam muito considerados na academia, são fundamentais para que o papel das universidades nos nossos dias seja repensado. “É interessante avançarmos no conhecimento, conversando entre pares e dialogando nas esferas próprias”, diz a socióloga. No entanto, acrescenta, é em projetos de investigação desta natureza que “o trabalho académico faz mais sentido”. Implementado em sete territórios de cinco países diferentes (Itália, Grécia, Eslovénia, Hungria e Irlanda), o H:ouse terminará no princípio do próximo ano e, daqui, espera-se, nascerão as bases de uma mudança que poderá influenciar as políticas habitacionais no continente europeu.
Começando pela questão da comunicação, aparentemente lateral ao H:ouse. Por que motivo se tornou tão importante no projeto?
A comunicação é muito importante porque um dos nossos objetivos principais é sensibilizar as populações mais vulneráveis para o direito à habitação. Queremos angariar pessoas para a ação, ao nível local, nos diferentes territórios em que os projetos estão a ser desenvolvidos por entidades que tentam criar redes. Há ainda outra dimensão, relacionada com o reconhecimento da vulnerabilidade, que é mais forte nas populações com origem migrante, requerentes de asilo e refugiados, por causa da crise de habitação e do momento político que estamos a atravessar.
Queremos angariar pessoas para a ação, ao nível local, nos diferentes territórios em que os projetos estão a ser desenvolvidos por entidades que tentam criar redes.
Também tenho aqui perguntas sobre esse momento político...
Não tenho a certeza de conseguir responder, mas… É importante dizer que o H:ouse também pretende chamar a atenção para as especificidades destas comunidades no contexto da presente crise de habitação. Estas especificidades não podem ser ignoradas nem vão resolver-se sozinhas. Parte da divulgação que fazemos também pretende captar esforços cívicos das comunidades, angariar voluntários, envolver entidades que habitualmente não estão tão implicadas neste tipo de esforços…
Como assim, quer exemplificar?
A responsabilidade social está mais presente nas questões ligadas à igualdade e à deficiência, por exemplo. No que diz respeito às populações migrantes, os privados não se sentem tão responsáveis por participar nos esforços de integração e de coesão social. Estas populações são duplamente penalizadas no acesso à habitação por constrangimentos burocráticos relacionados com a língua, os baixos salários, os próprios programas europeus…
Em que fase estão, nesse aspeto?
Este é sobretudo um projeto que gera redes, pensamento, conhecimento, capacita as pessoas, agrega recursos, boas-vontades, visão e experiência... E, até agora, os privados ligados à habitação têm sido os mais difíceis de captar. Estamos a conseguir parceiros que, por exemplo, dão formação sobre as regras de mercado, a linguagem ligada à habitação, a legislação em torno do arrendamento, mas não é a mesma coisa.
E quais são as expetativas, até ao fim do projeto, no próximo ano?
Até ao final do projeto, estas redes devem crescer e consolidar-se. Já alargaram muito, aliás… No último relatório, uma das coisas que percebemos foi que os parceiros foram capazes não só de criar laços mais fortes com parceiros com os quais já trabalhavam (organizações do poder local, juntas de freguesia, municípios, comissões ligadas aos serviços sociais, à saúde, à educação…) como de angariar novos parceiros nas próprias comunidades de migrantes.
Essas redes nas próprias comunidades funcionam sobretudo de maneira informal?
Ainda que informalmente, sabíamos que estavam na linha da frente. Na primeira parte do projeto, percebemos que há um conjunto de dispositivos que permite criar mais oportunidades: passa-palavra, receção, funcionamento em rede… E as comunidades fazem isto sem qualquer tipo de apoio de instituições sociais ou ONG, de maneira informal e muito pouco presente na literatura. Portanto, se os conseguirmos trazer para as redes que estamos a criar, capacitamo-nos, reforçamos o poder e tornamos estas redes lugares com múltiplas vozes, o que também é interessante. Ouvir um membro de uma fundação ou de uma associação de bairro é muito diferente de ouvir alguém com experiência migratória a falar na primeira pessoa…
Tem mesmo de existir articulação com o Estado. Sabemos que é ao nível local, da cidade e da comunidade, que o esforço é mais interessante,
mas também não podemos deixar os cidadãos sozinhos nesta gestão.
Há diferenças e semelhantes entre os vários países onde o projeto decorre?
Há muitas, sim. Há países em que o clima político estava — e está, talvez venha agora a ficar um bocadinho melhor… — particularmente pesado, como é o caso da Hungria. O nosso parceiro em Budapeste é uma associação ligada à inclusão através das artes que não operava na área da habitação, mas que através do projeto pode ligar-se a forças locais, até ligadas a partidos da oposição, em alguns casos. Na Hungria existe uma invisibilidade total destas questões e até alguma perseguição em relação aos parceiros. Em Itália, temos cidades de média dimensão, com comunidades muito fortes, com um terceiro setor habituado a trabalhar em parceria. Em Ravena, por exemplo, assistimos à criação de um manifesto contra o racismo na habitação. Em Pádua, também temos parceiros motivados, ligados a instituições religiosas.
Este projeto caminha sobre gelo fino ao cruzar dois dos temas mais desafiantes do atual contexto europeu: habitação e migração…
…Gelo fino é uma boa metáfora.
No princípio, tinham consciência de que iam tocar em temas tão sensíveis?
Tínhamos consciência, mas talvez não tivéssemos uma consciência completamente partilhada entre parceiros. Já nessa altura, em Portugal, tínhamos uma noção mais aguda, mas os parceiros húngaros ou eslovenos estavam mais distantes dessa escassez habitacional, por exemplo.
Nos países do Mediterrâneo, o impacto da migração é mais forte?
Sim, mas as redes de solidariedade também são mais fortes. Parte do nosso trabalho tem sido relembrar a essas redes pré-existentes o foco da habitação. Não podemos esquecer nem isolar a habitação de todas as outras esferas da integração, elas retroalimentam-se. Quando pensamos em soluções mais inovadoras, como a coabitação ou a habitação colaborativa, a dignidade desta participação é muito diferente se a pessoa for entendida na sua plenitude e não apenas a partir da sua vulnerabilidade.
Há algo que vos tenha surpreendido?
Bem, ainda estamos à espera que surjam mais surpresas… Mas talvez a primeira surpresa tenha sido a quase ausência de organizações de migrantes nestas primeiras redes do projeto. Convidámos logo os parceiros a procurarem nos seus territórios organizações diaspóricas,
a sentarem-se com elas para falar.
Esse é, digamos, o objetivo último deste projeto?
Para mim, pessoalmente, acho que é esse o objetivo último. O projeto é financiado pela Comissão Europeia e está muito vocacionado para disseminar a ideia de patrocínio comunitário. A primeira coisa que nós fizemos como académicos, nomeadamente a partir do Iscte, foi chamar a atenção de que o patrocínio comunitário só faz sentido no contexto europeu se estiver interligado com apoios públicos. Claro que precisamos de capacitar as comunidades, claro que precisamos de criar mesas cada vez mais alargadas, com uma enorme diversidade de interlocutores. Ninguém está excluído, as universidades, os senhorios, as agências imobiliárias, os próprios migrantes…
O H:ouse também pretende chamar a atenção para as especificidades das comunidades migrantes na presente crise de habitação.
Alguns são mais fáceis de envolver que outros?
Claro que sim. E sentar todas estas pessoas implica preparar materiais em várias línguas, dar tempo para que as pessoas possam conhecer-se, ouvir-se com respeito e confiança… E também significa que não podemos implementar soluções de cima para baixo.
Como concluíram que estes instrumentos só funcionam quando articulados com políticas públicas?
Através de experiências anteriores, como aconteceu, por exemplo, em Portugal, no apoio aos refugiados, uma iniciativa da sociedade civil lançada em 2016 com uma força extraordinária e que mobilizou entidades, privados e cidadãos anónimos. Esse impulso inicial teve depois uma experiência prática fortíssima que também permitiu perceber que comunidades de cidadãos bem-intencionados têm expetativas relativamente à integração de pessoas. Mas a boa-vontade nem sempre é adequada do ponto de vista técnico e não tem, muitas vezes, o tempo requerido de um processo de integração. Tem mesmo de existir articulação com o Estado. Sabemos que é ao nível local, da cidade e da comunidade, que este esforço é mais interessante, mas também não podemos deixar os cidadãos sozinhos nesta gestão…
Para um académico, é um desafio um projeto com esta implementação no terreno?
Um enorme desafio. Mas é onde eu acho que o trabalho académico faz mais sentido. Gostava de ser clara sobre isto: é muito interessante avançarmos no conhecimento, conversando entre pares e dialogando nas esferas próprias, arredadas do que é a experiência social. O que estamos a fazer, porém, é um movimento diferente.
Porquê, porque a hierarquia entre as partes se inverte?
Exatamente, estamos aqui para servir o projeto. Claro que, quando as coisas correm bem, os parceiros compreendem o sentido da nossa intervenção, os dados ganham qualidade e também nós podemos disseminá-los. Estamos a fazer um esforço para isso, esperamos poder publicar em breve.
Nunca sentiu que olhassem para o académico como um “chato”?
Às vezes, sim, mas eu também quero acreditar que o que devolvemos a este fórum também faz os parceiros sentirem-se parte de um todo mais alargado. E isso também alivia as pressões locais. Não podemos chegar a estes sítios com sobranceria, mas sim com uma enorme abertura para compreender os contextos em que estão a operar e perceber como é que podemos contribuir nessa operação. O que estamos a fazer também credibiliza o trabalho das próprias instituições: não se trata de uma avaliação externa, distanciada, é um dispositivo de avaliação interna, reflexivo e crítico.
E, por outro lado, também há quem olhe para vós e sinta que este trabalho pode ser confundido com um certo ativismo?
No caso do Iscte, como não estamos propriamente com uma equipa, a questão não se põe tanto… Há equipas académicas com o pé mais assente aí. Não estamos a servir uma causa, estamos a servir um projeto. O facto de, internamente, sermos uma equipa interdisciplinar também ajuda muito. Portanto, eu não diria ativismo, embora ache que este tipo de projetos, apesar de não serem muito considerados academicamente, são muitíssimo interessantes para que a academia se pense e se ligue ao pulsar da sociedade.
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Sandra Mateus CIES-Iscte |
H:ouse O projeto explora experiências bem-sucedidas de “patrocínio comunitário” para definir práticas e soluções eficazes nas políticas europeias de habitação. Pretende também criar uma rede de apoio para as comunidades migrantes. |