por Sara Belo Luís
fotografia Luísa Ferreira
Quais são as “vidas posteriores” dos projetos internacionais de desenvolvimento? No terreno e nas populações, o que fica de vestígios concretos e de memórias intangíveis? No AfDevLives, uma equipa multidisciplinar explora como os efeitos dessas intervenções perduram no tempo.
De uma maneira curta, é possível dizer-se que AfDevLives é um projeto sobre o tempo. Financiada com uma starting grant do European Research Council (ERC), a investigação vai decorrer até ao final de agosto de 2028, centra-se na Antropologia Social, mas envolve várias disciplinas e uma pesquisa no terreno que se estende a três países da África Oriental: Quénia, Tanzânia e Moçambique. Nesta entrevista, o luso-israelita Yonatan N. Gez explica como as intervenções de desenvolvimento enfatizaram determinadas ideias e, ao longo dos anos, foram sendo compreendidas pelos atores locais.
Fez o doutoramento focado nos rituais religiosos, um tema mais tradicional da Antropologia. Como chegou aos projetos de desenvolvimentos
dos países africanos?
Quando fiz o meu doutoramento, em 2014, regressei ao país onde nasci, Israel. Foi lá que encontrei uma colega a trabalhar sobre heranças de projetos de desenvolvimento do Estado israelita em vários países africanos. Nos anos 60, no momento da independência da maioria dos países africanos, o país ainda era bastante novo e participou de várias maneiras, desde projetos de construção ao comércio de armas. Tudo isso mudou, ao longo das últimas décadas, mas eu fiquei fascinado.
Visitou alguns desses países, nessa altura?
Sim, contactei essa amiga e perguntei-lhe se podia colaborar. Visitei a Tanzânia e a Zâmbia, fui a vários sítios onde existe uma herança muito clara, lembranças dessas memórias e dessa ligação com os especialistas de origem israelita. Na Zâmbia, por exemplo, encontrámos construções do género dos kibutz ou dos moshav, uma espécie de aldeia colaborativa-cooperativo. Tratando-se de edifícios, é mais fácil de captar, mas às vezes há uma estranheza, uma rutura temporal… Uma espécie de “estou aqui” e, ao mesmo tempo, também estou num “outro lugar”, talvez até associado a “outro tempo”.
Porquê estranheza?
Sou bastante crítico desta identificação de África, como se, por um lado, fosse uma espécie de romantização e se, por outro, fosse uma espécie de essencialização. Mas também existe muito interesse neste tipo de tensões por parte dos interlocutores locais com quem falei. Imagine: um grande projeto chega à sua aldeia e há um dia em que saem sem explicar nada, o próprio governo não explica nada. Tudo isto constitui uma experiência muito estranha. E é por isso que, por vezes, também surgem rumores com grande intensidade. As pessoas que moram nesses sítios acabam por contar histórias sobre o que aconteceu porque, pura e simplesmente, não faz sentido.
Numa altura em que assistimos a uma diminuição do investimento na área do desenvolvimento, é preciso fazer um balanço, analisar os êxitos, mas também as falhas e as consequências de longa duração.
Essas experiências acontecem mais com programas de desenvolvimento ou mais com projetos de investigação?
Isso também é interessante. Porque, da nossa perspetiva, há uma distinção muito clara entre a investigação e a prática do desenvolvimento, mas do lado de que vive nesses lugares somos apenas outsiders, representantes dos nossos países de origem. E de ambos se espera que, ao regressarmos, entreguemos uma mensagem: “Quando voltares ao teu país, diz-lhes isto e aquilo…”
Como se pertencessem a outro mundo.
Sim, mas julgo que também pode ser interessante, numa altura em que assistimos a uma diminuição do investimento na área do desenvolvimento, fazer um balanço das cinco, seis, sete décadas que já levamos deste tipo de projetos. É preciso analisar os êxitos, mas também as falhas e as consequências de longa duração. Todos os problemas em torno do conceito de white savior, por exemplo…
O trabalho de campo do AfDevLives já está feito?
Temos ainda duas estudantes postdocs que vão para o terreno no outono/inverno deste ano. Simultaneamente, também temos colaboradores locais no Quénia, na Tanzânia e em Moçambique que só agora começaram o seu trabalho de campo.
Li um artigo onde faz referência a um romance de Abdulrazak Gurnah, Afterlives, o escritor que ganhouo Nobel da Literatura em 2021. Em que medida influenciou o nome do projeto de investigação?
Trata-se de um autor de origem tanzaniana e, por isso, achei interessante. Quando o li, trabalhava com uma colega especialista em literatura africana e daí a inspiração. É uma história sobre as várias gerações de uma família, um bom exemplo porque mostra como as coisas perduram ao longo das gerações e, às vezes, existem ligações que são difíceis de explicar. Ressonâncias entre coisas que acontecem ao longo do tempo, sem uma ligação explícita, um nome que se repete e que nem sempre se entende, por vezes parece quase mágico… Gosto do conceito por nos ajudar a chegar a um espaço pouco tangível.
Fora do tempo?
Fora do tempo, sim, quase espiritual. Como expliquei, tentei deixar os contextos da investigação sobre religião. A verdade é que, na religião, estes momentos estão mais identificados, mas aqui também os encontramos. Não lhes damos nomes, não os identificamos, não os categorizamos como numa religião formal, como um ritual. Existem até investigadores que falam no desenvolvimento como um certo tipo de religião, porque perdura, apesar de existirem provas de que não funciona. É um tipo de fé.
Sem evidência.
Bem, essa escola é muito crítica, mas é quase como se fosse uma ideologia, um fanatismo.
Como vão, de agora em diante, organizar o projeto?
Vamos participar na organização da próxima conferência africanista, a European Conference on African Studies, que vai decorrer no Iscte, no verão de 2027. Também organizaremos uma exposição e, alguns dias depois, um seminário final do AfDevLives. Também temos de pensar no que podemos fazer, para lá de publicar na academia.
Quer exemplificar?
Organizar exposições, por exemplo, temos muito material visual para apresentar. Entre nós, já falámos sobre isso. Temos, nomeadamente, um doutorando queniano a trabalhar sobre heranças, memórias de comboio no Quénia antigo. Há mais de três anos que ele está a trabalhar com pessoas que moram ao lado de uma estação de comboio, eles conhecem-no, esperam que ele fale com as autoridades e que traga algo de volta.
Os próprios investigadores deixam expetativas junto dessas populações?
Sim, e ao mesmo tempo que isso constitui uma oportunidade também é um risco. Neste tipo de trabalho, abrimos…
…Uma caixa de Pandora?
Uma caixa de Pandora, sim, com dores pessoais e coletivas. E também muitas expetativas: “quando vais voltar?”, “porque é que estás a fazer isto?”, “podes transmitir-lhes isto e aquilo?”
É fácil dizer que somos apenas investigadores, que não temos poder de decisão sobre as coisas, mas por outro estamos lá e, por isso, temos alguma responsabilidade.
Qual deve ser a posição de um investigador?
Bom, há relações de poder, não é? Por um lado, é fácil dizer que somos apenas investigadores, que não temos poder de decisão sobre as coisas, mas por outro estamos lá e, por isso, temos alguma responsabilidade. A questão da comunicação, por exemplo, é importante. Também não temos de fazer tudo da mesma maneira…
Provavelmente, até é o que faz mais sentido, adaptar a forma de fazer a cada caso.
Sim, os estudos de caso são muito diferentes e cada investigador também tem responsabilidades e atitudes diferentes. Acho melhor assim.
O estudante de doutoramento de que falei, por exemplo, pensou em fazer um livro e queria oferecê-lo a cada um dos seus interlocutores, mas não sei se isso vai ter muito impacto…
Um livro não tem o mesmo valor para os dois lados.
Exato. Para os seus interlocutores, alguns dos quais não falam bem inglês, oferecer um livro com 400 páginas até pode ser considerado um bocadinho humilhante… Terá de pensar como transmitir o que aprendeu à comunidade. Poderá organizar um workshop, uma atividade, não sei, não há uma única resposta. Nem existem respostas fáceis.
No AfDevLives, também se preocuparam em adotar metodologias exploratórias. Consegue dar exemplos?
Sim, sempre soubemos que o projeto ganhava em adotar métodos capazes de sentir estas tensões temporais, estas discrepâncias. No caso do estudante queniano de que tenho vindo a falar, ele trabalhou com um artista local que pintou vários quadros e que, depois, fez uma exposição. Foi muito interessante porque, depois, houve um diálogo entre a produção artística e as memórias dos interlocutores. Imaginou, por exemplo, uma estação de comboio que era muito animada, o que corresponde provavelmente a uma certa romantização...
Há muita nostalgia?
Nostalgia é, justamente, uma palavra que temos usado muito. No verão de 2025, também organizámos um evento com 30 pessoas na Tanzânia no qual usámos audio walks para explorar as heranças pós-industriais (são métodos pouco usados, sobretudo nos contextos africanos). A ideia foi criar narrativas de ódio que as pessoas vão ouvindo nos headphones.
À medida que circulavam no espaço, iam sendo acompanhadas por essas narrativas e sentindo essa dissonância entre o que já não acontece agora e o que ainda acontece. A maioria desses locais eram fábricas que não funcionam, mas a história quase mítica, imaginada e romantizada continua a viver nas almas das pessoas.
São fábricas abandonadas?
São fábricas que já não funcionam. Nada é abandonado, os lugares contam muitas histórias, apelam à imaginação, podem até ser ocupados por animais, pela natureza, entram nesses espaços enquanto os seres humanos se retiram.
Como se o abandono total — o vazio, no fundo — não existisse.
Também é preciso transmitir um pouco de esperança. Há sempre a possibilidade de imaginar. Talvez a falha até seja nossa, dos nossos conceitos limitados, o que falta porventura é a nossa capacidade de imaginar. No caso do projeto sobre as estações de comboio, o nosso doutorando também mostra como estes espaços se tornam muito interessantes para fazer comércio, por exemplo.
Por vezes, são até espaços úteis na medida em que são abrigados.
Muito úteis, Aliás, quando se diz que estes espaços são inúteis, pergunto: inúteis para quem? Também na Tanzânia, temos um outro projeto sobre as reutilizações dos materiais relacionados dos comboios. Há muita madeira, muito metal cuja qualidade está, por vezes, associada ao facto de ter determinada origem. Podemos admitir que se trata de um material com boa qualidade porque é colonial e, por isso, vale a pena roubar ou reutilizar. Isto é uma ideia um pouco perversa…
E ambígua, para dizer o mínimo.
Sobretudo quando falamos de pessoas que se sentem esquecidas. É estranho dizermos que sentimos a falta de uma presença e essa presença estar associada a um regime colonial opressivo. //
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Yonatan N. Gez CEI-Iscte |
AfDevLives Pretende compreender de que maneira as intervenções dos projetos de desenvolvimento sublinham determinadas ideias, acentuam determinados preconceitos e, ao longo do tempo, são compreendidas pelas comunidades locais. |